9.2.10

"Nasceu"


"A força da sua mão é comovente. Agarra-se ao meu indicador. O desenho fino dos seus dedos e da sua mão inteira é apenas suficiente para cobrir metade do meu indicador. Talvez como veludo, a palma da sua mão é morna e suave.
Lentamente, acorda. Começa a mexer os braços. Leva as mãos à cara. Passa os punhos redondos, magros, pequenos pelo nariz, pelos lábios, pelas faces, pelos olhos fechados. Faz a expressão de uma pessoa grande que não tem vontade de acordar, mas que tem de acordar e que culpa o tempo, os outros ou o destino por ter de acordar.
Levanto-o da cama de ferro onde a enfermeira o trouxe. Sustenho o seu corpo sobre as minhas duas mãos abertas. As suas costas pousadas sobre as palmas das minhas mãos. E os meus dedos seguram-lhe a nuca, o peso da cabeça. E sinto os seus cabelos, talvez como veludo, a fazerem-me festas nos dedos. E existe um instante especial: ele abre os olhos, passa esse instante e volta a fechá-los.
Depois, em tentativas, abre e fecha os olhos, passam instantes, passam outros instantes, e abre e fecha os olhos até deixá-los apenas abertos. Digo-lhe palavras e ele olha muito sério para a minha voz.
Olhamo-nos. Uso um toque delicado para sentir a ponta dos seus lábios, os seus futuros lábios, os seus futuros beijos pousam na ponta do meu dedo. Aproximo-o do meu peito.
Nasceu há pouco mais de duas semanas. Acreditamos que é lindo. Nasceu com 3 quilos e 550 gramas. Correu tudo bem Estamos tão felizes. Olhamos para ele, emocionamo-nos e sentimos vontade de agradecer a alguém."

José Luís Peixoto, in JL

8.2.10

De José Luís Peixoto



"Elas sabem todos os segredos da paciência. Têm certezas dentro de um mundo que não podem partilhar com ninguém. Aceitam cada injustiça e cada contrariedade porque conhecem o preço de cada alegria. Conhecem o valor de cada palavra e do instante em que se diz cada palavra.
Elas estão preparadas para não existirem porque sabem que serão atravessadas por um vulcão. Através dos seus corpos, um vulcão. Terão os olhos fechados no momento em que quiserem assistir a planícies de explosões até ao horizonte. Ficarão paradas, de boca aberta e, mesmo que o mundo inteiro grite, esse será sempre um grito de silêncio, sempre menos que do que um sussurro, menos do que um murmúrio perante o incêndio de sangue, as chamas e as brasas do sangue, perante a vida.
Elas têm raízes de árvores cravadas no ventre. Ramos estendem-se para o futuro que ninguém conhecerá, mas que existe, existe porque são elas que o carregam dentro de si durante nove meses, durante o tempo necessário, a distância necessária, o sofrimento necessário.
Uma sala cheia de mulheres grávidas a esperar. Os seus corpos existem como montanhas. Os seus olhos são poços à noite, são galáxias, são constelações de impossibilidades e de certezas límpidas. Os seus olhos são caminhos, estradas que poderiam continuar para sempre, destinos perpétuos. Os seus olhos são segredos simples e infinitos. às vezes, os seus corpos desaparecem como montanhas.
Esta sala cheia de mulheres grávidas a esperar é o centro exacto do mundo."

in JL

5.2.10

Eu e a Educação Física

Quem me conhece, sabe que este título não joga bem com a minha pessoa. No entanto, eu gostava muito da disciplina de Ginástica, como se chamava no meu tempo. Nós, meninas, tínhamos que usar um tipo de calção-saia, mais uma camisola a que hoje eu chamaria "T-shirt", com o emblema da Mocidade Portuguesa pespegado em cima do peito e umas sapatilhas, tudo branco. Com os seus proverbiais jeito para a costura e falta de dinheiro, a minha mãe fez-me uma bela saia-calça com pregas, muito superior em beleza e elegância ao modelo adoptado. Nada a fazer: teve que refazê-la segundo o padrão.
Tínhamos uma professora de Ginástica: uma senhora aloirada nos seus 40s, que ia para as aulas de saia travada e sapatilhas.
O que fazíamos? Às vezes, ginástica: braços esticados para os lados, dedos das mãos nos pés, sem encolher as pernas, essas coisas.
Numa época, toda a turma jogava ao mata e isso era fantástico! Na maior parte das vezes, a prof ia dividindo a turma em grupos, conforme achava que eram os nossos pontos fortes: um grupo privilegiado ia para as danças folclóricas; o seguinte na ordem das capacidades físicas, ia fazer voley; ainda outro, para o basket. As que sobravam, era uma turma feminina, ficavam sentadas nas bordas do ginásio, a ver as outras e a conversar.
Eu acabava nos dias de sorte a jogar basket, uma das últimas a serem escolhidas. Ou sentada a ver as outras.
Admira que nunca me vejam entrar num ginásio?

1.2.10

"Good Housekeeping"


Fiquem-se com a capa desta Revista de Fevereiro de 1920. Arte de Jessie Willcox-Smith.

29.1.10

J. D. Salinger no outro lado da vida


Dei esta obra a alunos de Inglês do 12º ano durante alguns anos. Acho que eles nunca chegaram a apreciar muito o Salinger, mas eu, sim, fui apreciando. E quando tive a oportunidade de visitar New York, não me falhou tentar encontrar alguns dos lugares por ele mencionados em "The Catcher in the Rye".

25.1.10

Pôr do Sol de Janeiro


Promessa de sol ou de chuva?

21.1.10

A Vergonha da RTP

http://ww1.rtp.pt/blogs/programas/linhadafrente/?k=1-parte-do-Linha-da-Frente-de-2010-01-20.rtp&post=5873

Não sei se é a mãe ou o pai quem tem razão, se o juiz é ignorante ou apenas cruel: apenas sei que o jornalista da RTP aproveitou o facto de a criança ter sido colocada num Lar inscrito na Aliança Evangélica Portuguesa, para, ao condenar esse Lar, condenar por igual todas as outras instituições que, por acaso, também se encontram inscritas na mesma Aliança, embora nada tenham a ver com o tal Lar. Como se se tratasse de um polvo gigantesco com o intuito maléfico de dar cabo das crianças portuguesas.
Na sua sanha persecutória, mencionou e filmou sem autorização uma organização que conheço muito bem e há muitas décadas: a Aliança Pró-Evangelização de Crianças, com uma Quinta para acampamentos em Vendas Novas.
Isto tipifica ignorância e má intencionalidade. Vergonha!

19.1.10

Na Escola

A aluna entrou bem a meio da aula de 90 minutos. A porta é mesmo à frente, na sala de aula. Portanto, deu nas vistas. Na sala estava eu e a turma: uma rapariga e cerca de 12 rapazes, todos entre os 17 e os 19. Ela trazia um decote profundo, daqueles que gritam: "olhem para cá!" Escolheu um lugar sozinha, ofereceu-se para vir ao quadro, veio, voltou a sentar-se. Passei a aula toda a lançar olhares furibundos aos rapazes e a conter os seus comentários entre-dentes. No fim, chamei-a para falar comigo. Disse-lhe que aquela roupa ficava muito bem se fosse na praia. Não sendo... "Os rapazes são uns abusados!", disse ela. "São", confirmei, "mas não convém dar-lhes hipótese". Foi-se rearranjar durante o intervalo e passou por mim de novo, toda composta: "Estou bem assim?" "Óptima!"

17.1.10

Visto na TV

Muito se tem visto na televisão acerca da desgraça no Haiti. Impressionou-me o que se passou numa prisão em Port-au-Prince, que guardava os piores criminosos da cidade. A prisão ruiu em parte e os presos fugiram todos. Ficaram 4 mortos. Fez-me lembrar o relato de Actos sobre um outro terramoto numa prisão, em que Paulo e Silas e os outros presos não fugiram:

25 ¶ E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam.
26 E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos.
27 E, acordando o carcereiro, e vendo abertas as portas da prisão, tirou a espada, e quis matar-se, cuidando que os presos já tinham fugido.
28 Mas Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos.
29 E, pedindo luz, saltou dentro e, todo trêmulo, se prostrou ante Paulo e Silas.
30 E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?
31 E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.
32 E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa.
33 E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus.
34 E, levando-os à sua casa, lhes pôs a mesa; e, na sua crença em Deus, alegrou-se com toda a sua casa.

Impressionante também a forma como as pessoas reagem à calamidade: uns armam-se, reunem-se em bandos e roubam tudo o que possam encontrar que lhes mate a fome e a sede. Quem os condenará? Não faríamos nós algo de parecido para dar de comer aos nossos?
Outros cantam, como Paulo e Silas na prisão, cantam e louvam a Deus. Impressionante. Seria eu capaz do mesmo?

15.1.10

Cara Fernanda Câncio:

Desta vez é que estou completamente de acordo consigo.
Não sei se os McCann tiveram ou não alguma coisa a ver com o desaparecimento da filha, mas parece-me de muito mau tom que um polícia que não conseguiu resolver o caso pretenda ganhar (muito) dinheiro à custa da versão que não conseguiu provar. Já para nem falar de tentar obter dividendos políticos à custa do caso.