7.6.06

História V

Não era rica, a Marta. Trabalhava numa loja, morava num prédio dos subúrbios e levava uma vidinha casa-trabalho-casa. Também não tinha grandes vaidades. Como jóias, apenas um fio de ouro herdado da avó e da mãe, que guardava como relíquia, mas que pouco valor financeiro representava. Uma vez, tinha-o até mandado avaliar ao ourives e ficara altamente ofendida pelo baixo e desdenhoso valor que lhe atribuiu. Não seria ela, portanto, a candidata ideal a um assalto. Mas, ou porque alguém soubesse que havia ouro em sua casa, ou porque os assaltantes estivesses desesperados por completo, um dia aconteceu.
Ao entrar em casa, no fim de um dia de trabalho, estava tudo voltado do avesso: gavetas, estantes, armários, com as pobres tralhas espalhadas pelo chão.
O coração saltou-lhe à boca, quando se lembrou do seu magro fio de ouro. Viu no sítio do costume e nada. Foi para a escada e alarmou a vizinhança toda. Correu tudo em casa e nada. Desceu de novo as escadas, subiu-as, nada. Foi buscar uma vassoura e começou a varrer os degraus. No último lance, caída e meio escondida na poeira, a sua preciosidade! O ladrão deve ter ouvido passos na escada, fugiu e deixou cair o fio.
Louca de alegria, Marta volta a incomodar a vizinhança, que a olha com algum desdém. Vai de andar em andar, de porta em porta, a mostrar o precioso fio. "Venham comigo", diz ela, "venham a minha casa tomar qualquer coisa!"
Desconfiados com tanta alegria, os vizinhos vão subindo um a um, já que uma comidinha grátis nunca se recusa.
Rapidamente, Marta manda vir comida, bebida, bolos e abre aquela garrafa de whisky guardada para uma ocasião especial. Reina a alegria.
E sobre uma almofadinha de veludo azul, no centro da mesa, o velho fio de ouro dos antepassados.