A minha vizinha D. Laura tem um café na rua há muitos anos, onde toda a vizinhança se reúne. Tem também duas filhas, já quase nos quarentas, a Bela e a São, que a rua viu crescer no café. Nunca conheci o pai das raparigas, penso que morreu cedo. A mãe cuidou sempre delas sozinha e, como se costuma dizer, deu-lhes igual educação.
Quando a escola se tornou um fardo para elas, a mãe puxou-as para a ajudar no café. Foi o que a Bela fez. Mas não a São.
A São, filha mais nova, talvez mais mimada, sofreu a forte investida das drogas aqui na rua, no início da década de 80, que dizimou toda uma geração. Desses moços e moças que se escondiam nas traseiras da escola para fumar os charritos, muito poucos estão estabelecidos na vida, já eles mesmos pais de adolescentes.A maioria perdeu-se.
Foi esse o destino da São. Às drogas leves, seguiram-se as pesadas, dois filhos, um de cada pai, entregues à mãe, uma pena de prisão e desapareceu. Dizem que foi fazer uma desintoxicação para Inglaterra, que roubou todo o dinheirito ganho pela mãe e pela irmã e não mais voltou. Anos a fio.
Qual não é o espanto geral da vizinhança quando a vemos no café da mãe, mais velha, muito mais velha que a sua verdadeira idade, mas sorridente, junto da sua radiante mãe.
Dividem-se as opiniões: a mãe devia desconfiar mais; em breve a São fará o mesmo e lá fica a pobre, uma mão atrás, outra à frente. Outros admiram o gesto da mãe, que mais uma vez perdoou.
Quem está de má cara é a filha mais velha, a Bela. Não esqueçamos que já uma vez viu voar as suas poupanças e teve de aturar os sobrinhos que a irmã deixou. Já não acredita em arrependimentos e estranha o sorriso de orelha a orelha que a mãe exibe agora.
Enfim: histórias de todos os dias.